domingo, 24 de fevereiro de 2013

Yossi & Jagger- delicada relação(2002) e Yossi (2012)

                              

Yossi & Jagger- delicada relação(2002) e Yossi (2012) são dois filmes que me comoveram bastante, ambos dirigidos por Eytan Fox. O primeiro é baseado em uma história real que desconheço, confesso. O segundo, como você já deve supor, é uma continuação.

Yossi e Jagger são soldados que estão abrigados em uma base militar que fica na fronteira de Israel com Líbano. Yossi é o comandante do grupo. Rígido, não cogita a hipótese de assumir sua opção sexual e muito menos a do relacionamento com Jagger que sonha com uma vida a dois, cobra demonstrações de amor e se revela mais sensível.  

É um filme curto, mas intenso. Eytan Fox valoriza as pequenas, porém significativas, coisas do amor, aquelas que são o diferencial entre um casal e outro, aquelas que ficam nas lembranças, as do saudosismo. Uma brincadeira boba, uma música, a revelação de um sonho, um pedido.  Direção e roteiro(Avner Bernheimer, Natan Elkanovich, Yaron Scharf) ultrapassam os preconceitos que existem sobre homossexuais, quebram com uma sensibilidade encantadora a barreira que muitos criam (nós x eles) e, com isso, conseguiram me envolver sem as discussões clichês sobre opção sexual, sem grandes feitos que deveriam arrancar choros ensurdecedores. Envolvem com o pouco. Envolvem quando me identifico, quando respeitam o amor, o ser absolutamente humano.


Quanto a Yossi (2012), prefiro não relatar a sinopse para não informar o desnecessário. Também não é um filme extenso, no entanto é mais arrastado, o que não se trata de um demérito, pois a continuação da história pede isso, Yossi está se arrastando. Portanto, Eytan é novamente feliz, agora com o roteiro de Itay Segal.

Yossi (2012) traz o constrangimento diante de uma humilhação, a insegurança, a falta de confiança em si mesmo; a magia do primeiro olhar, a conquista; a dificuldade de superar uma perda, de lidar com ela; a chance, as oportunidades. Imagino que seja impossível não se identificar em pelo menos algum momento. Dessa forma, considero tão bonito quanto o primeiro, me fez chorar menos porque o desfecho era outro, mas comoveu o suficiente para deixar um gostinho de quero mais.

Sinceramente, não lembro de ter assistido a um filme que tenha conseguido demonstrar um relacionamento homossexual com tamanho respeito e naturalidade. Aliás, estou aqui batendo nessa tecla porque brigo constantemente pelos direitos gays e também porque vejo muitos absurdos por aí, mas os filmes não batem, não se prendem nessa questão, uma das razões para que eu lhes atribua as qualidades citadas no texto. São filmes sobre o amor, sem a “melação” habitual e a pornografia que você deve estar imaginando encontrar. Recomendo, adorei!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A idade da razão, de Jean Paul Sartre



Sabe aquela leitura maçante daquele texto tão importante quanto chato intitulado O Ser e o Nada? Pois é, você não a encontrará nos textos literários de Sartre. E sabe toda aquela filosofia apaixonante, característica de seu pensamento? Essa sim você encontrará, o que revela um Sartre, no mínimo, talentoso.

Em A idade da razão, acompanhamos a trajetória de Mathieu em busca de dinheiro para que sua namorada possa realizar um aborto. A história já inicia com a notícia da gravidez e a aparentemente natural decisão de interrompê-la, sem que durante muito tempo se considere outra possibilidade de solução para o “problema”. Em seu decorrer, conhecemos o casal que possui uma relação teoricamente descompromissada e, portanto, cômoda há anos. Fui levada a compreender e questionar essa dinâmica sem que fosse tomada pela ira, inconformismo e o drama que a situação poderia gerar.

Mathieu está no que julga ser a idade da razão e o que ele entende por isso explica seu comportamento diante da decisão do aborto e a maneira com que conduziu toda sua vida. As escolhas do personagem e o enfrentamento dos resultados, exemplificam o conceito de liberdade do filósofo J. P. Sartre e nos levam a pensar em outras questões existenciais.

Entre as pessoas que o personagem recorre, está seu irmão que possui o dinheiro e, entretanto, uma opinião contrária não só a decisão de Mathieu, mas à todas suas convicções responsáveis pelo que é e vive.

A idade da razão, assim como as demais obras literárias de Sartre, não é um livro exclusivamente para Filósofos. Aliás, nesse caso, esqueça os Filósofos se a palavra lhe der a ideia de qualquer tipo de hermetismo.  É um romance para aqueles que gostam de histórias bem construídas e contadas, o que ouso afirmar ser uma especialidade de Sartre.

O que fica é a já conhecida reflexão de que não tomar uma determinada decisão se trata de uma escolha que implicará consequências como qualquer outra. A passividade é também uma opção e o difícil é ter consciência disso ao invés de simplesmente argumentar que “as coisas aconteceram”, “fugiram do controle”.  

O que enlaça é: fará ou não o aborto? E penso que já informei demais até aqui!

Resenha: Estopim - Carla Dias

2012 foi, definitivamente, o ano em que eu amarguei meu mais baixo índice de leituras, desde que fui alfabetizada. Custei a me organizar dentro das tantas mudanças que ocorreram na minha vida, de modo que minha grande paixão foi deixada de lado. Uma das metas para 2013 era recuperar as leituras perdidas e dei início por aqueles livros que eu havia ganhado ou comprado no ano passado. 



Um deles foi o Estopim, da escritora paulista Carla Dias, que ganhei de presente da própria. Confesso que eu estava com um pouco de medo de ler este livro e explico. O último livro que li da Carla foi o Jardim de Agnes, em 2010. Até hoje me lembro das emoções que eu senti ao ler aquele livro, de como a protagonista, Agnes, me tocou profundamente e de como este livro furou uma fila imensa e foi de cara figurar entre os livros que mais gostei na vida. Ou seja, eu tinha uma expectativa muito alta em relação ao Estopim e, como todo mundo sabe, expectativa anda de mãos dadas com o medo da decepção.

Mas era preciso me desapegar de Agnes e me deixar envolver por Olavo, o narrador-personagem de Estopim. Quem é Olavo? Olavo é apenas mais um entre os milhões de habitantes da cidade de São Paulo e não faz a menor questão de ser qualquer coisa além disso. Vive sem planos ou pretensões com seu salário de operador de telemarekting - embora seja formado em História. Empurra a vida com o peso de alguém que foi abandonado algumas vezes. Primeiro pelo pai, que fugiu quando ele ainda era criança. Depois pelo irmão, que mudou-se para a Europa quando descobriu ser filho de outro pai. Abandonos deliberados. Depois pela mãe que morreu vítima de uma doença. Depois pela primeira namorada, que morreu vítima de bala perdida. Abandonos involuntários. 



E com essa premissa, poderíamos supor que se trata de um livro sobre abandono. Mas então o irmão que foi embora decide voltar, agora um astrônomo famoso. Na monotonia do seu trabalho, Olavo se vê envolvido com Julia, a acrobata, uma cliente de quem só conhece a voz, mas mudará a sua vida. E numa ida à locadora - por sugestão de Julia - conhece Gilda. E desses encontros, tramas surpreendentes se desenrolam,  sugando Olavo de sua existência retilínea para um universo no qual se vê obrigado a lidar com crimes, paixões e reencontros inesperados. E então o leitor descobre que não é um romance sobre abandono, mas exatamente o contrário disso.



Não vou falar mais sobre o livro porque, de verdade, gostaria que todo mundo tivesse a oportunidade de lê-lo. Meu medo de me decepcionar foi para as cucuias pois já nos primeiros capítulos percebi que era a mesma Carla do Jardim de Agnes: com uma capacidade incrível de criar personagens absolutamente humanos e profundos.  Nos livros da Carla, não existem figurantes. Todos os personagens estão ali por algum motivo, com história, presente e futuro. Tudo embalado pelo ritmo gostoso da Carla que escreve um livro inteiro, como se fosse uma poesia.

"Chove a cântaros e há encantos. Ela sabe muito bem o que eu quero e eu quero muito bem ao que ela sabe. Há entre nós essa sincronia abandonada pelo desvelo e nos negamos a reconhecê-la - bordas, brio, descabimento - , pois teríamos de reavaliar cada segundo e cada sentimento já desfiado com um certo alheamento".

Para quem quiser conhecer um pouco da escrita da Carla, ela escreve toda quarta-feira no Crônica do Dia, o mesmo site para onde eu escreve quinzenalmente às quintas (sim, é uma grande responsabilidade escrever justamente depois dela). Os livros dela foram publicados graças à seleção da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo, por meio do edital ProAC. Dá muito orgulho ver uma pessoa próxima escrevendo obras incríveis como essas e conseguindo apoio para a publicação. Porque, sabemos, não é fácil não...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida, de Matthew Quick (livro e filme)



"Dói olhar para nuvens, mas também ajuda, como a maioria das coisas que causam dor"

Algo que é muito alardeado por nós amantes de livros é que os livros são sempre melhores que os filmes inspirados neles. Exagero. E como já diria o sábio Simplício de A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo: "Exagerar é mentir". E O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook) vem comprovar isso. Gostei do livro, achei simpático, com bons momentos e uma grande premissa. A execução, no entanto, teve suas falhas, mas nada que anule o prazer da leitura. Só que o filme foi além e conseguiu até contornar algumas falhas do livro.

Pat (Bradley Cooper) é um professor de 30 e poucos anos recém saído de uma clínica para pessoas com problemas mentais, ele é bipolar e teve uma grave crise que culminou no fim de seu casamento. Ele também é um otimista incurável, ele acredita em finais felizes e que o filme da sua vida está caminhando para isso, e o final feliz para ele seria voltar para sua ex. Pois é, otimistas também são depressivos - mais uma “verdade” que vem abaixo nesse texto. 

A graça da história está nas interações de Pat com os demais personagens: seu alegre companheiro de clínica; sua dedicada mãe; seu distante pai; seu bem sucedido irmão; seu terapeuta e companheiro de torcida pelo Eagles; e, especialmente Tiffany (Jennifer Lawrence), uma viúva maníaca depressiva (salvo engano, não lembro bem como a diagnosticaram), e os dois, cada um com sua “insanidade”, vão caminhando (ou melhor, correndo e dançando) juntos nessa loucura que é viver. 

Uma das diferenças entre o livro e o filme é a forma que trazem e contornam esses personagens, e o pai de Pat é que sofre a maior mudança de uma mídia pra outra. No livro ele é um cara que mal interage com o filho e é dolorido acompanhar essa relação, já no filme de David O. Russel (diretor também do bom e premiado O Vencedor), ele adquire um tom mais terno e carinhoso, provavelmente porque Russel tenha um filho com problemas semelhantes ao de Pat.

Boa parte das críticas negativas que ouvi por aí sobre filme dizia respeito a sutiliza, simplicidade ou leveza da história, já que uma temática como essa deveria ser mais sombria e pesada. Sim, o filme e o livro poderiam ter ido por esse caminho e poderia ter se saído bem, mas ir pelo caminho menos nebuloso e mais afável também foi uma boa escolha e não desmerece suas oito indicações ao Oscar 2013 (filme, diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro adaptado e edição) só por isso, ou vamos também ter que questionar todos os prêmios e méritos do Woody Allen, por exemplo. 

O Lado Bom da Vida é mais comédia romântica do que qualquer outra coisa sim, só que dentro desse gênero tão batido e tão seduzido por clichês, ele consegue se diferenciar. Ouso dizer que é mais difícil fazer rir do que fazer chorar, e fazer rir e chorar no mesmo filme, então... O livro é uma dramédia disfuncional, e o filme é  divertido e sensível, e isso deve bastante ao roteiro e especialmente aos seus atores, até Robert De Niro (no papel de Pat pai), como disse Isabela Boscov, resolveu voltar atuar e não apenas trabalhar burocraticamente como ator. O fato é que saí do cinema tocada pela história (mesmo já tendo lido o livro!) e adorando todos aqueles personagens. 


"O mundo quebrará seu coração de dez maneiras diferentes, isso é uma certeza. E não posso começar a explicar isso ou a loucura dentro de mim e dos outros."

p.s. Em geral, eu não gosto de capas de livros iguais aos pôsteres dos filmes, mas abro feliz uma exceção para O Lado Bom da Vida. Confesso que a beleza de Bradley Cooper foi um fato crucial nessa minha decisão. 
p.p.s. Agora temos uma página no facebook, curtam !

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

João e Maria e os contos de fadas no cinema



Numa das primeiras conversas que eu tive com meu marido na vida, eu fiz alguma referência a João e Maria (não me pergunte porque diabos eu estava falando de João e Maria numa conversa onde havia a intenção de conquista por ambas as partes mas, enfim, sou mestre em falar coisas nada a ver em contextos nada a ver). O que quero contar é que me lembro dele reagir com estranheza, perguntando: "quem são esses?" para cair na risada depois que eu expliquei e ele concluiu "aahhh, Hansel e Gretel". 

Ele é chileno e, apesar de para o espanhol também existirem algumas traduções bizarras (um dia farei um post sobre isso), até hoje ele não aceita essa versão abrasileirada para os nomes dos personagens.

Bom, confesso que nesse momento eu faria uma grande conexão entre um assunto e outro, para contar que assisti ao filme João e Maria - Caçadores de Bruxas (Hansel y Gretel - Cazadores de Brujas, no caso, já que vi aqui no Chile), mas não estou lembrando qual seria essa conexão, então meio que vou mudar de assunto bruscamente. 

Vi o filme. Estava com grande expectativa por dois motivos. Primeiro porque tenho lido que ele tem sido o campeão de bilheterias no Brasil desde a estreia e me parece que aqui não é diferente. Como já comentei em outro post, fui tentar ver o filme na semana passada e estava esgotado. E, vejam bem, o povo aqui não é nada afobado. Eu vi Amanhecer na pré-estreia com a sala relativamente vazia.

Segundo que para mim seria um filme de desempate em relação à minha opinião sobre essas releituras dos clássicos dos irmãos Grimm que, ao que parece, estão na moda. A Garota da Capa Vermelha, de 2011, eu achei excelente. Bem fiel à história verdadeira, mas com muita ação e suspense. 



Já a Branca de Neve, coitada, depois de dois filmes recentes Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, continuo preferindo mil vezes o desenho da Disney. O primeiro, eu comecei a ver num avião e nem terminei. O segundo, amarguei por duas horas a mesma cara de sempre da Kristen Stewart.  



O que posso dizer é que o empate continua, porque fiquei no meio termo com João e Maria. O filme tem um enredo fácil, uma trama que se desenrola sem muitos imbróglios, o que me fez pensar que pudesse ser um filme voltado mesmo para crianças (o que não considero um demérito). Mas o fato de ter até uma semi-nudez e cena de sangue explodindo na cara das pessoas me deixou na dúvida se a intenção era mesmo essa. A propósito, achei essas cenas de sangue a algumas maquiagens de bruxas um pouco trash, mas isso garante ao filme um certo humor. Dá para se divertir. João e Maria não chega a ter um mistério envolvente como A Garota da Capa Vermelha, mas é um bom entretenimento. 

Ah, antes que eu me esqueça, minha irmã - que é diabética e profissional da saúde me deu uma explicação (ratificada pelo seu médico Levimar Araújo, Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes) que, ao contrário do que mostra no filme, uma pessoa não vira diabética por ter comido muito doce, como aconteceu com o João. Uma desinformação desnecessária, já que eu não entendi qual a relevância para o filme dele ser diabético. A menos que isso tenha alguma importância em filmes futuros, já que eu li por aí que existe a intenção de transformar João e Maria numa franquia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Vídeo-resenha: Johnny Depp e Verissimo

(Eu sei que, de acordo com a já não tão nova reforma ortográfica eu deveria escrever vídeorresenha. Mas me recuso. Posto isso, vamos ao assunto):

Gravei este vídeo falando sobre os dois primeiros livros que li este ano, que foram "Diálogos Impossíveis" (Verissimo) e Johnny Depp - Biografia não-autorizada (Danny White). O vídeo conta algumas curiosidades, especialmente da biografia. Como gosto muito do Johnny Depp, achei que seria legal partilhar com vocês alguns episódios da vida dele.

(Queria agradecer ao maridon, que me ajudou a editar o vídeo).


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Filme: O Impossível


Considerei péssima a ideia de assistir ao filme "O Impossível" justo nessa semana. Justo quando estamos particularmente sensibilizados com essas tragédias que tomam centenas de vidas de assalto numa leva só. Justo quando questionamentos do tipo "Por que dessa forma?", "Por que aquelas pessoas?", "Por que naquele momento?" aparecem para tirar o sono. De repente, uma onda, de água ou de fogo e, pá, é o fim.

Senão o fim da vida, ao menos o fim da vida que se tinha antes. Não dá para viver uma coisa assim e continuar o mesmo. É o que eu imagino. Imagino também que o filme - que conta a história de uma família que vivenciou o tsnami no Ocenado Índico, em 2004 - retrata com bastante realismo o que é estar no meio de uma tragédia natural daquelas proporções. Em diversos momentos me senti angustiada, agoniada, com dificuldade em manter os olhos na tela. "O Impossível" exige do telespectador uma boa dose de sangue frio. Um mérito, obviamente. Um filme com essa temática não poderia deixar de provocar alguma emoção. 

Eu alternava dois tipos: ou estava aflita ou chorando. Chorando especialmente nas cenas que envolvem as crianças. Embora o que venha chamando atenção de quem entende tenha sido a atuação da Naomi Watts que, inclusive, recebeu uma indicação ao Oscar pelo seu papel como a mãe dessa família espanhola...ops....inglesa. Aí está uma falha do filme. Apesar da verdadeira família Bennet ter origens hispânicas, no filme são ingleses, lindos e loiros. Óbvio.

Outro ponto que a Sam comentava comigo e eu concordei plenamente é a forma como os nativos do local são colocados no filme como elementos totalmente imparciais ao desastre. Eles estão ali, tranquilos, solidário com a dor dos ingleses-lindos-e loiros, como se as maiores vítimas não tivessem sido eles. Óbvio, vítimas são vítimas, independente de raça, nacionalidade ou qualquer outra "divisão" sem sentido, mas ainda acho que houve uma certa falta de cuidado nesse aspecto.

No geral, achei um filme bom e supertriste, do tipo que nos deixa gratos pelo simples fato de estarmos vivos (como se a realidade não fosse dura o suficiente para provocar esse tipo de sensação. Mas, enfim, talvez o cinema e qualquer outro tipo de arte sirva mesmo para isso, nos tocar mais sensivelmente).

Na próxima semana, espero assistir ao filme "João e Maria: Caçadores de Bruxa", que foi o que me levou ao cinema mas estava com ingressos lotados. Então veio a péssima ideia de assistir "O Impossível". Justo essa semana.




Segundo o querido Google, essa é a família que inspirou o filme.





terça-feira, 29 de janeiro de 2013

José e Pilar, dirigido por Miguel Gonçalves Mendes



Encontrei José e Pilar num blog que com muita frequência me direciona e a bons filmes, o Laranja Psicodélica. A existência do filme não me era desconhecida, mas até assistir não soube direito do que se tratava, tinha certeza de que a história do casal seria encenada por atores e confesso que fiquei emocionada por ver o próprio casal, na própria realidade, em cena e longe de estar encenando.

José e Pilar é um longa-metragem documental que mostra como era a vida de José Saramago e sua esposa Pilar Del Rio, tendo como ponto de partida e também central a produção do livro “A viagem do Elefante”- que por sinal não li. Todo esse processo nos revela a identidade, a intimidade de um relacionamento fundamentado no companheirismo que só o amor pode proporcionar.

O gigante da literatura, polêmico e um dos meus ídolos, se revela ainda mais apaixonante. A preocupação em terminar o livro, a dedicação e disciplina só permitem conhecer um Saramago a altura de suas obras. Um José que soube envelhecer, consciente como pouquíssimos de nós somos. Grato, terno, bem humorado. Alguém que sustentou suas opiniões e convicções até o fim, desprovido da preocupação de simplesmente agradar o mundo.

Pilar é incrível. Sem dúvidas, a mulher que eu gostaria de ser, a companheira que eu gostaria de ter. Feminista assumida, fez com que eu desejasse aplaudi-la mediante suas atitudes e declarações. Aliás, as declarações, de ambos, não apenas sustentam o filme como é característico nos documentais, mas são as responsáveis para que se chegue as constatações que citei, para que se envolva emocionalmente na relação do casal.

O que me resta, depois de uma experiência tão enriquecedora, é agradecer Miguel Gonçalves Mendes por ter insistido em filmar a rotina dos dois, por ter presenteado a nós, fãs de Saramago, com um trabalho tão bonito. José e Pilar é um documento importantíssimo que deve ser acessado não só por curiosidade, pensando em acumular mais algum tipo de conhecimento; mas para entendermos, em meio a confusão que vivemos, o que é companheirismo – palavra chave da história do casal e reavaliarmos o que pensamos, dizemos e somos.

Confiram o trailer:

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Búfalo da Noite, de Guillermo Arriaga



"Nessa quinta-feira vesti a camisa preta, não para desafiar olhares curiosos,
 mas para recordar que nunca é possível extirpar o passado,
 por mais que se queira; que ele permanece como uma queimadura antiga
 a nos arder de vez em quando, e que é melhor viver com ele do que contra ele."

Guillermo Arriaga adora caçar. Adora também repetir e evidenciar isso por aí. E eu adoro tirar conclusões precipitadas.  Tal informação sobre o autor me fez deduzir que a obra em questão era sobre caças e isso fez com que eu não me interessasse pela leitura. Contudo, estava enganada. Trata-se de um mergulho no ser humano.

O Búfalo da Noite tem como protagonista um jovem suicida, Gregório, que permanece mais vivo do que quando o era de fato na vida de seu melhor amigo, Manuel, e de Tânia, namorada de ambos, embora oficialmente do primeiro. O triângulo, como na maioria dos casos, acaba tomando proporções que abalam o controle emocional dos personagens. Entretanto,  o diferencial da obra está nos conflitos que começam após o suicídio de Gregório, ou seja, quando teoricamente tudo deveria estar resolvido e com direito a um final feliz.

Carregado de sentimentos e atitudes intensas e extremamente íntimas, o livro não possui uma narrativa arrastada – característica de muitas obras que se dedicam ao ser humano e suas loucuras -. Pelo contrário, é ágil, nos amarra através da curiosidade que é despertada a cada instante. É curiosamente profundo e, por vezes, incômodo e reflexivo.

Arriaga possui um estilo de contar histórias que é de forma não-linear, o que me agrada muito, pois ficamos sempre tentados a entender o que a princípio parece caótico, inexplicável. O antes e o depois se confundem, levando-nos a compreender a trama sem a certeza de que realmente estamos compreendendo-a, o que julgo apaixonante num autor.  Trabalhos como os roteiros da trilogia cinematográfica Amores Brutos, 21 Gramas, BabelOs três enterros de Melquiades Estrada ou o livro Um doce Aroma de Morte são grandes exemplos -embora eu não goste muito de Babel. Não sabemos o que ele nos reserva para o final e se reserva alguma surpresa, porque a questão está sempre ali, no dia a dia, nas atitudes que imploram para serem revistas quando já não se pode alterar o curso das coisas.

O Búfalo da Noite contém todas essas características. Entendemos os acontecimentos gradativamente, por meio de flashbacks e, ao mesmo tempo, surgem outras dúvidas acerca da história e também da vida em si.

É um livro que nos mostra o quanto é tênue a linha que separa a lucidez da loucura, o quanto estamos próximos da segunda e podemos ser seduzidos, envolvidos por ela. É sobre a dimensão, intensidade e incompreensão da morte, dos relacionamentos, moral e sentimentos que o envolvem. É o tipo de livro que após ser lido, gosta de revisitar nossos pensamentos mais algumas vezes.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Novidades e mudanças

Voltamos! A Biblioteca virou Combo. A mudança de nome veio da vontade de expandir nossos pitacos e falar também sobre outras coisas que nos encantam, além dos livros. Além da abrangência de temas, estamos pensando também em outros formatos. Um deles será o vlog. Mais ou menos assim:


domingo, 1 de abril de 2012

Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke




”Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso”(Rilke)


Não tenho ideia de quantos são aqueles que desejam ser escritores, mas faço parte do grupo. Pretendo escrever romances, ou melhor, quero conseguir, um dia, terminar um dos tantos que iniciei. 

Quanto mais lemos sobre o assunto, quanto mais nos deparamos com a boa literatura, maior é a crise que acredito que deva atormentar a maioria dos que sonham ser escritores. E acontece dessa forma porque assumimos a responsabilidade de sermos bons e tememos o fracasso, dois conceitos que chegam a nós prontos, quando deveriam surgir do nosso interior.

Franz Kappus, um jovem que desejava tornar-se poeta, resolveu, por meio de cartas, pedir conselhos ao poeta Rilke, que os concede com muita sinceridade. Kappus nos presenteou ao resolver publicar sábios conselhos expressados em belíssimas palavras.

Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke é a resposta singela e profunda sobre a crise de quem almeja escrever. É um olhar atento, experiente e sensível sobre a vida, a morte e todos os grandes sentimentos que fazem parte do intervalo entre ambas. É uma crítica a crítica. Um exame de consciência. Uma explicação para a tristeza, um brinde a solidão. É um "manual" para os que aspiram escrever e, sobretudo, para quem deseja, mas não consegue sentir a vida.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Millennium I - Os homens que não amavam as mulheres, de Stieg Larsson



Millennium I – Os homens que não amavam as mulheres é o primeiro livro da trilogia Millennium, de Stieg Larsson.  O título pode levar você a crer que se trata de um água com açúcar para o público feminino. No entanto, é um livro sobre violência. Sobre as sujeiras do mundo econômico. É um livro sobre vingança e/ou justiça. Sobre mistério e investigação. Doença, natureza e sociedade. E, com tudo isso, um livro impossível de ser abandonado antes do término, considerando o teor agradável da leitura.

Henrik Vanger contrata o simpático jornalista Mikael Blomkvist para desvendar o assassino de sua sobrinha Harriet Vanger que, vale enfatizar, só poderia ser alguém da família. A principio, é um romance policial sobre um crime de família. No entanto, Larsson desenvolve a história numa escrita leve e absolutamente sedutora que nos enlaça do início ao fim, não permitindo nenhuma distração e, melhor, deixando o leitor cada vez mais ansioso pela solução dos numerosos mistérios que envolvem o principal, o que, somado às situações que chocam, constrangem, divertem, irritam, nos fazem vibrar, dá consistência ao que poderia ser um mero suspense.

A ágil história é conduzida por personagens autênticos e agradáveis. Lisbeth Salander, a minha favorita, surge no romance como na vida dos outros personagens, parecendo não lá muito importante e, de repente, revela uma eficiência aqui, uma qualidade ali, força, fragilidade, inteligência e, pronto, nos cativa. Mikael é a boa e divertida companhia de que precisamos. Henrik, um doce. Há, certamente, os repugnantes, os estranhos e aqueles que a gente não consegue compreender. Cada personagem com sua particularidade cuidadosamente construída, com seus defeitos humanamente compreensíveis, com atitudes socialmente (in)aceitáveis.

Os homens que não amavam as mulheres é bem amarrado, valoriza os detalhes, tornando a investigação atenta e inteligente. Sem nenhuma falha (pelo menos que eu tenha conseguido identificar) nas pistas e nos fatos, nos surpreende constantemente sem que para isso precise nos subestimar.

No ônibus, no trabalho, antes de dormir. 522 páginas que não pesam, que não exigem um ambiente propício para serem lidas, que se adéquam a qualquer situação. 522 facilmente devoradas por qualquer leitor que seja munido de um pouco de curiosidade. 522 que merecem estar entre as mais vendidas. 

Ps: Depois da leitura, não deixe de apreciar o filme do renomado David Fincher:


sábado, 10 de março de 2012

Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf


"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse"

Anos 20, pós-primeira guerra mundial, um dia em Londres. Um dia quase banal se não fosse pela festa que Clarissa Dalloway tinha que organizar. Mas há mesmo na vida um dia banal quando nossos pensamentos nos levam a todo lugar, do inferno ao céu em segundos? Assim o livro nos conduz, passando de uma mente a outra, entrando no íntimo dos personagens através de seus pensamentos e anseios. E não há nada mais pessoal, revelador e solitário do que isso.

Acompanhamos os personagens, andando por Londres e moldando a vida da Mrs. Dalloway do título, inclusive pela própria. É um rascunho de uma época e uma obra prima de um ser humano. "Não desejava morrer, a vida era boa, o sol aquecia, se não fosse os seres humanos...". Sem dúvida Mrs Dalloway era muito mais do que uma anfitriã e, sem dúvida, um dia pode ser uma vida.

E acho que essa minha vontade de ser sucinta e fazer poesia em uma resenha vem da tradução do livro a cargo de Mario Quintana.

"Este é um privilégio da solidão: pode a gente fazer o que bem nos parece. Pode-se até chorar, se ninguém está olhando"

sexta-feira, 2 de março de 2012

Por favor, Cuide da Mamãe, de Kyung-sook Shin

"Ame, enquanto puder amar" (Franz Liszt)

Ninguém havia recomendado, sequer tinha ouvido falar do livro. Também não conhecia a autora, nem nunca tinha lido algum livro coreano. Foi título que me saltou os olhos e, sem titubear, firmei compromisso de leitura. Foi um tiro no escuro, mas atingiu ao alvo.

Pelo pouco que sei, Kyung-sook Shin já escreveu vários livros, é aclamada na Coréia do Sul e Por Favor, Cuide da Mamãe vendeu mais 1,5 milhões de cópias pelo mundo. Esse também é o primeiro (e até agora único) livro dela publicado no Brasil.

O livro é sobre a busca por uma senhora de 69 anos, mãe de cinco filhos já adultos que desaparece no metrô de Seul. Mas não é simplesmente sobre o enigma de seu sumiço, é sobre como seus parentes se dão conta que já a haviam perdido há muito tempo. É sobre o sacrifício, amor e dedicação incondicional de uma mulher aos filhos. É sobre o remorso. É sobre sentimentos conflitantes. É sobre o ser humano. É sobre família e suas complexidades emocionais.

Tendo foco nos pontos de vista de uma filha, de um filho, do marido e da própria desaparecida, o livro é de uma riqueza lírica perturbadora. Tão melancólico e real que dói, mas também ensina. Mesmo sem apelar, sempre sutil e verossímil (muito verossímil), o livro é de uma carga emocional forte. É possível sentir cada palavra, por isso, devastado, no final das contas, o leitor não quer saber o que aconteceu com Mamãe ou onde ela estar, mas sim como se sente. E, se possível, atender ao pedido do título e cuidar de mamãe.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Estrela Mais Brilhante do Céu, de Marian Keyes


"E um dia todos nós vamos estar mortos e nada disso vai ter a menor importância"

Estava pegando alguns livros emprestados com uma amiga e pedi a ela um cuja leitura fosse me deixar feliz. Ela ofereceu A Estrela Mais Brilhante do Céu com ressalvas. Afinal, tanto eu quanto ela sabemos que Marian Keyes tem a tendência de ir fundo em assuntos pesados que poderia deixar qualquer um depressivo, mas, por outro lado, também nos oferece uma espécie de compreensão e redenção. Como se um livro fosse capaz de ter empatia por alguém, oferecer um ombro, algo assim. E gosto de atitudes do tipo, pois quando alguém está passando por certos momentos o que mais se quer é ser compreendido e acolhido. E livros podem fazer isso? Certamente melhor do que algumas pessoas.

Chick Lit é como se chama o gênero literário voltado, dizem, para mulheres. São as comédias românticas da literatura por assim dizer. Mas, além do fato de geralmente vir com uma roupagem de preconceito, o termo é meio limitador. Como em todo gênero literário, nesse também existem bons e maus livros, bons e maus escritores. Marian Keyes fica no primeiro grupo.

Se você não está familiarizado com o estilo da escritora, resumidamente, como a própria diz, ela costuma escrever comédia sobre algo sério. Existem os livros dela que são mais, digamos, "mulherzinha", nessa leva temos: Melância, Casório?! e Los Angeles, e, mesmo assim, ainda caminham por temas espinhentos. Por que não há nada leve em traição, separação e depressão pós-parto, certo? Mas existem também ( e esses são os meus preferidos) os mais sombrios, que falam de assuntos como drogas, violência sexual, depressão, morte. Dessa leva, destaco Férias! (um mergulho e um retorno do fundo do poço de um vício), Tem Alguém Aí? (uma sensível história sobre o luto) e o próprio A Estrela Mais Brilhante do Céu.

O livro tem um narrador intrigante que, na sua misteriosa missão, nos leva a conhecer os moradores de um prédio em Dublin, mas especificamente na Star Streat, 66. Quatro andares. No primeiro, o casal Matt e Maeve, simpáticos e apaixonados, mas algo está errado naquela harmonia de corações. No segundo, Jemima, uma senhora marcada pela vida em seus mais de 80 anos, e seu cachorro, chamado Rancor, irão receber a visita do bonito, mas perdido Fionn, filho adotivo de Jemima. No terceiro, a jovem batalhadora, destemida e rude Lydia divide o apartamento com Jan e Andrei, poloneses musculosos, sensíveis e com saudades de casa. No quarto e último andar, a sensata Katie vive sozinha e acaba de completar 40 anos. Em comum? Eu diria que eles estão, no mínimo, insatisfeitos. Alguns realmente depressivos. Tristes com a vida que levam, com todo peso do passado, presente e futuro que têm sob si. Menos Jemima que parece ser mais resignada. Mas alguns deles estão tão insatisfeitos com a vida que sentem alivio em arriscá-la em sinais de transito ou ficam imaginando quantos bolos de chocolate alguém tem que comer para morrer.

Acompanhar a jornada desses personagens nos oferece passagens ora sufocantes, ora divertidas. Um dos livros mais densos de Keyes, sem dúvidas, que mostra maturidade, sem perder a leveza da juventude.

Na contracapa de A Estrela... a autora alerta que é impossível escolher seu livro preferido, seria como uma mãe ter que escolher entre um de seus filhos, no entanto, revela que este era o seu preferido. Eu sei, o nome não ajuda, a capa também não passa lá muita credibilidade, fica difícil o levar a sério e nem sei se é essa a intenção, mas não vá lê-lo achando que é mais uma história bobinha para menininhas, muito menos achando que será o próximo ganhador do prêmio Nobel. Vá sem expectativa, afinal, "um dia todos nós vamos estar mortos e nada disso vai ter a menor importância". Mas se eu fosse você, leria mesmo assim.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mulher Perdigueira, de Fabrício Carpinejar



“No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo 
e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá 
que abandonar a filosofia pessimista,a inteligência solteira do
botequim e se declarar apaixonado.  Terá que ser incoerente, 
contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a
certidão negativa, a proteção bancária,
os manifestos de aversão ao casamento e filhos.” 
Carpinejar


Num relacionamento amoroso, a mulher não pode bancar a controladora, ciumenta e escandalosa, não pode ligar o tempo todo, escancarar a paixão, afinal, homens não gostam disso. Opa! Cuidado com as generalizações, Fabrício Carpinejar declara: “Quero uma mulher segurando meus dois pés. Segurar os dois pés é carregar no colo”. Ele gosta justamente do tipo de mulher que a sociedade reprova, ou melhor, ele gosta de mulher de verdade, aquela que é emoção não reprimida pela razão. Mas não se trata de uma mera preferência, é defesa que explica, justifica. É crítica aos amigos e demais homens que clamam por liberdade. É uma obra literária.

Mulher Perdigueira é um livro que reúne crônicas que versam não só sobre a paixão de Carpinejar à mulher que envergonha boa parte da sociedade, como também sobre as situações comuns que ocorrem nos relacionamentos, no jogo da convivência, na sua vida. Talvez por ser poeta, transforma o simples em encantador ou, se preferirem, aponta o encanto do simples, do pequeno, do corriqueiro.

Romântico e cuidadoso na escolha das palavras, Carpinejar nos envolve numa leitura prazerosa. Provocador, nos leva a questionar nossas convicções, a concordar, discordar, duvidar, criar certezas, pensar. Uma leitura que nos provoca é sempre válida.

Indiscreto, abre o livro e, com isso, nos engole num golpe de intimidade. E, então, o leitor se sente em casa. Fica a ligeira sensação de que descobrimos muito sobre o mundo masculino, pelo menos o de um gay heterossexual chamado Carpinejar. Aos homens curiosos por entender nosso universo, muitas constatações sobre a mente e o comportamento feminino. Fica a descoberta de que a dinâmica dos relacionamentos varia muito pouco, mas que, ao mesmo tempo, não se sustenta com receitas. Fica uma lição que vale para qualquer relacionamento: “a dor não pede compreensão, pede respeito.”

Mulher Perdigueira, publicado em 2010, é a dica de leitura para quem quer iniciar 2012 se deparando com uma escrita apaixonada e divertida sobre aquele assunto que interessa a todo ser humano saudável. Olha eu cometendo o erro da generalização novamente...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Livros em série



Séries de TV, assim como os livros, são uma das minhas paixões. Provavelmente porque o roteiro e o desenvolvimento dos personagens costumam ser de grande importância num episódio de seriado. Já no cinema, na maioria das vezes, isso fica mais disperso ou em segundo plano. Não que eu também não adore (bons) filmes, acho que entendem o que quero dizer. Além do que, atualmente, as produções de TV andam se destacando, devido a liberdade criativa e ousadia. Já que os estúdios de cinema parecem mais interessados em quantidade do que qualidade e se mantêm numa zona de conforto.

Há muitas séries inspiradas em livros, outras que inspiraram livros e ainda aquelas - mais raras - que, de uma forma ou de outra, giram em torno de livros. Hoje selecionei algumas da primeira categoria, ou seja, aquelas que tiveram sua origem, direta ou indiretamente, na literatura. E assim como os livros, têm séries para todos os gostos. Vamos a elas.


FRIDAY NIGHT LIGHTS


"Clear eyes, full hearts, can't lose!"

Friday Night Lights é uma das minhas séries preferidas da vida, e olha que já assisti/assisto a várias. Mas antes da série veio o filme e antes do filme, o livro. Tendo como subtítulo "A Town, a Team and a Dream", o livro do jornalista esportivo H. G. Bissinger tem narrativa factual e se encarrega de relatar a história real dos Panthers, um time de futebol americano de um colégio no interior do Texas. O livro foi lançado em 1990 e em 2004 virou filme. A série veio em 2006, com personagens e situações diferentes das do filme e com uma veia mais dramática, focando nas pessoas, mas tendo sempre o esporte como pano de fundo.

O que posso dizer é que poucas produções conseguiram contar histórias com tanta realidade e proximidade. Muito fácil se identificar com os personagens e se envolver com seus dilemas. Se você não gosta e/ou não entende de futebol americano, não tem problema, a série é muito mais que isso. Eu mesma achava esse esporte uma incógnita desinteressante e, no entanto, isso não me impediu de vibrar com as cenas de jogos e muito menos de me emocionar por e com aqueles habitantes da pequena Dillon, a cidade fictícia onde se passa o seriado. Eu me sentia em casa assistindo a Friday Night Lights. Digo mais, depois que se aprende um pouco mais sobre football, ele se torna bem interessante. E, vendo a série, você também começa a entender toda essa paixão que os americanos têm pelo esporte e sua forte presença na cultura daquele país.

Há boatos de que um novo filme está por vir, dessa vez inspirado na série (que se encerrou no começo desse ano) e com foco no casal Eric e Tami Taylor, respectivamente um técnico de futebol americano e uma orientadora/diretora de escola, e, sem dúvidas, a alma e os destaques do seriado, além de serem um dos melhores, mais adoráveis e mais críveis casais que já conheci no mundo da ficção.

A propósito, a série foi a campeã de melhor roteiro e de melhor ator de série dramática (Kyle Chandler por dar vida a Eric Taylor) do último Emmy, reconhecimento tardio, mas superválido. Como diria coach Taylor: “Olhos atentos, corações plenos, não se pode perder”. Ou em bom inglês: “Clear eyes, full hearts, can’t lose”.


JUSTIFIED


"Você puxa o gatilho e sua vida vai mudar. E não para melhor"

O protagonista da série, o agente federal, meio caubói, Raylan Givens, é um personagem de Elmore Leonard (também produtor da série), presente em alguns de seus livros e contos. A série incorpora esse clima de faroeste moderno e mistério policial criado por Leonard, assim como todo o pano de fundo para a construção do personagem principal e de sua trajetória. De poucas palavras, cético e com pinta de justiceiro, Givens tenta combater o crime na sua cidade natal enquanto lida com seus próprios fantasmas. Em princípio parece mais um seriado policial qualquer, um procedural que segue sempre a mesma fórmula, mas logo se ver que tem muito mais a oferecer. A segunda temporada, por exemplo, figura como uma das melhores coisas da TV desse ano. E a terceira temporada estréia nos EUA em 2012.



SECRET DIARY OF A CALL GIRL


Começou como um blog, depois vieram três livros e, por fim, uma série baseada na vida de uma garota de programa britânica, conhecida como Belle de Jour (hoje em dia uma pesquisadora com dois doutorados). A série teve quatro temporadas de um tom leve e divertido, mas sem nos poupar dos pormenores da profissão.


SEX AND THE CITY

Foram seis temporadas e dois filmes (até agora) sobre a vida das amigas Carrie, Charlotte, Samantha e Miranda, retratando o universo feminino numa grande cidade (no caso, Nova York), mas tudo começou com o livro de Candace Bushnell de mesmo nome.


SHERLOCK


"Não sou um psicopata. Sou um autista sociopata. É diferente, eu pesquisei"

Como um dos personagens mais icônicos da literatura mundial, Sherlock Homes já ganhou diversas versões, mas a proposta dessa série inglesa (da BBC) é trazê-lo para os dias atuais, e essa roupagem contemporânea dá o tom da produção, mas sem deixar de lado a essência do detetive de Arthur Conan Doyle. Comandada por Steven Moffat (roteirista e produtor responsável atualmente também pela clássica Doctor Who), a minissérie fez bonito nos três episódios de sua temporada inicial (em 2010). A próxima temporada, infelizmente, só deve vir ano que vem.


PRIDE AND PREJUDICE


“Onde há uma superioridade de mente, o orgulho será normal sempre”
Mais um clássico britânico que a BBC se encarregou de levar pra telinha. Pretendo falar mais de Orgulho e Preconceito, o livro, a série e o filme, num post especial dedicado apenas a essa obra, que vem a ser um dos meus livros preferidos. Por hora basta dizer que a minissérie de 1995 em seus seis episódios foi fiel ao livro e fez uma adaptação adorável, além de ter acertado em cheio ao escalar Colin Firth pra viver Mr. Darcy.

A BBC também produziu minisséries de outros livros de Jane Austen, como Emma, mas ainda não cheguei a vê-las.


TRUE BLOOD

Inspirada nos livros As Crônicas de Sookie Stahouse, de Charlaine Harris, True Blood se passa numa cidadezinha do sul dos EUA e fala da co-existência entre humanos e vampiros quando os últimos resolvem sair do caixão e têm que lutar para serem aceitos. Eu só li o primeiro livro e não me instigou a continuar a leitura dos demais, mas as duas primeiras temporadas da série são boas, especialmente a segunda, já as duas mais recentes (a série acaba de encerrar sua quarta temporada) deixam muito a desejar.


DEXTER

Livros escritos por Jeff Lindsay sobre um psicopata que mata criminosos. O seriado já está na sua sexta temporada e, apesar da última ter sido lamentável, já foi uma das melhores e mais originais produções da televisão e ainda há esperança que Dexter volte a ser aquela série matadora (desculpe o trocadilho) que nos conquistou.


GAME OF THRONES

"Quando se joga o jogo dos tronos, você vence ou você morre"

Tida como a melhor fantasia da atualidade, As Crônicas de Gelo e Fogo já está no seu quinto livro (serão sete no total e três já foram lançados no Brasil: Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis e A Tormenta de Espadas). A fama dos livros chegou antes, mas vi primeiro a série e só depois me embrenhei nas milhares de páginas dos dois primeiros volumes. Não é fácil memorizar o nome dos diversos personagens e suas ligações, famílias, vassalos, reinos e afins, mas quando se penetra nesse mundo criado por George R. R. Martin, é difícil sair. O que chama atenção na saga são seus temas, como intrigas políticas e jogos de poder, tudo numa linguagem mais adulta que ousa abordar assuntos mais delicados como incesto e prostituição. Só mesmo a HBO para conseguir adaptar os livros com a produção e a liberdade que merecem. A série estreou esse ano e consagrou-se como sucesso de público e crítica, garantido logo sua segunda temporada, prevista para abril de 2012.


Obs: Há muitas outras séries que ficaram de fora, inclusive nacionais (Os Maias, Capitu...), mas optei por restringi minha seleção às séries americanas e inglesas e, mais ainda, restringi também àquelas que já assisti e/ou li os livros que lhe deram origem e, principalmente, que julgo que devem ser vista e/ou lidas. Ficam as dicas.

domingo, 25 de setembro de 2011

Variações sobre o prazer, de Rubem Alves



“Albert Camus sonhava com o momento em que ele escrevesse com liberdade total, na orgia anárquica do corpo: “Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça.” Ele não teve essa chance. Morreu antes. Eu estou tendo.”

Dizem que Rubem Alves é filósofo, psicanalista, pedagogo, escritor, mas, antes de tudo isso ele é um educador que provavelmente já nasceu com o dom de ensinar. Em poucas e compreensíveis palavras, explica e explora conceitos, os complicados conceitos, seja escrevendo ou falando, afinal, ambas não passam de uma agradável conversa.

Variações sobre o prazer [Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette] é o último lançamento de Rubem Alves, o cara que, como ele mesmo gosta de brincar, Deus já tentou levar daqui algumas vezes, mas resistiu bravamente porque gosta – e muito – da vida. E o que mais poderíamos esperar de um leitor apaixonado de Nietzsche? É a verdadeira personificação do “sim a vida”. A obra, como denuncia o título, é um passeio pelo prazer que a filosofia, a política e a comida podem nos dar.

Com uma rica referência de cinema, música e literatura sendo sugerida durante o livro, Variações Sobre o Prazer é, novamente, uma crítica aos eruditos, ao nosso modelo de educação, ao que a maioria das pessoas entende por ciência, conhecimento e sabedoria. É o amor que Rubem Alves não cansa de declarar à vida, sobretudo, à natureza.

Como quando recebe um microfone na mão, Rubem Alves escreve abrindo parênteses para tudo, inserindo longos comentários que mudam o foco, nos levam para longe e, de repente, como se perguntasse “do que é que eu estava falando mesmo?”, ele nos traz de volta a conversa inicial. É assim que faz a interação prazerosa entre teologia, sabedoria de vida, sabedoria conceitual, sabores, corpo, alma, mente, filosofia, economia, culinária, estética.

Variações sobre o prazer é uma conversa que só tem a nos acrescentar, até mesmo a você que jura que já viu e sabe tudo sobre o mundo. Diferentemente dos que vomitam conhecimentos, Rubem Alves nos leva a refleti-los e admirá-los.

“Tornei-me inimigo dos sonhadores ingênuos que pensavam que bastaria que os homens mudassem suas ideias para que o mundo também mudasse. Moquecas não se fazem só com ideias e intenções. Quem quer mudar o mundo tem de ser um especialista no uso do fogo. Na história, esse uso do fogo tem o nome de política...”

domingo, 18 de setembro de 2011

Lançamento: "Acaba Não, Mundo"


Literatura Coletiva

“ACABA NÃO, MUNDO e outras do www.cronicadodia.com.br”, celebra a longevidade do site na internet e reúne autores para lançamento em Belo Horizonte.

Manter um projeto vivo por treze anos num terreno tão efêmero quanto a internet é uma façanha. E, quando acontece, precisa ser comemorada. Nada mais oportuno, então, que comemorar publicando um livro, já que estamos falando de um projeto de difusão literária, idealizado pelo professor e escritor Eduardo Loureiro Jr.
Trata-se do Crônica do Dia (www.cronicadodia.com.br), site que, como sugere o nome, publica diariamente textos dos novos cronistas do Brasil sob o olhar atento de mais de quinhentos leitores diários.
Estes leitores, agora, poderão ter o Crônica do Dia em suas cabeceiras, graças a uma antologia, organizada por Eduardo Loureiro Jr., reunindo textos de trinta autores que já contribuíram com o site. “ACABA NÃO, MUNDO e outras do www.cronicadodia.com.br”, como foi batizada a obra, será lançada em algumas capitais brasileiras, começando por Belo Horizonte.
O objetivo de lançar o livro em várias cidades é o de possibilitar o encontro e a confraternização dos 30 autores – que estão espalhados por todo o Brasil – com seus leitores. A reunião de entusiastas em prol desta causa, aliás, foi uma característica que marcou todo o processo de produção do livro. A publicação não apenas foi escrita coletivamente como foi custeada por meio do financiamento colaborativo, obtido pelo site catarse.me. Além disso, a capa do livro também foi escolhida em um concurso organizado na internet.
O lançamento em Belo Horizonte acontecerá no dia 24 de setembro, sábado, das 11h às 13h, no Café Com Letras (Rua Antônio de Albuquerque, 781, Savassi - Belo Horizonte), com a presença dos autores Eduardo Loureiro Jr., Felipe Peixoto Braga Netto, Fernanda Pinho e Paula Pimenta (autora da série “Fazendo Meu Filme”).
Posteriormente, o livro será lançado em São Paulo (08/10), Rio de Janeiro (22/10), Brasília (03/11) e Fortaleza (17/11). 



Estarei nos lançamentos de BH e São Paulo. Espero vocês, gente!