sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Estrela Mais Brilhante do Céu, de Marian Keyes


"E um dia todos nós vamos estar mortos e nada disso vai ter a menor importância"

Estava pegando alguns livros emprestados com uma amiga e pedi a ela um cuja leitura fosse me deixar feliz. Ela ofereceu A Estrela Mais Brilhante do Céu com ressalvas. Afinal, tanto eu quanto ela sabemos que Marian Keyes tem a tendência de ir fundo em assuntos pesados que poderia deixar qualquer um depressivo, mas, por outro lado, também nos oferece uma espécie de compreensão e redenção. Como se um livro fosse capaz de ter empatia por alguém, oferecer um ombro, algo assim. E gosto de atitudes do tipo, pois quando alguém está passando por certos momentos o que mais se quer é ser compreendido e acolhido. E livros podem fazer isso? Certamente melhor do que algumas pessoas.

Chick Lit é como se chama o gênero literário voltado, dizem, para mulheres. São as comédias românticas da literatura por assim dizer. Mas, além do fato de geralmente vir com uma roupagem de preconceito, o termo é meio limitador. Como em todo gênero literário, nesse também existem bons e maus livros, bons e maus escritores. Marian Keyes fica no primeiro grupo.

Se você não está familiarizado com o estilo da escritora, resumidamente, como a própria diz, ela costuma escrever comédia sobre algo sério. Existem os livros dela que são mais, digamos, "mulherzinha", nessa leva temos: Melância, Casório?! e Los Angeles, e, mesmo assim, ainda caminham por temas espinhentos. Por que não há nada leve em traição, separação e depressão pós-parto, certo? Mas existem também ( e esses são os meus preferidos) os mais sombrios, que falam de assuntos como drogas, violência sexual, depressão, morte. Dessa leva, destaco Férias! (um mergulho e um retorno do fundo do poço de um vício), Tem Alguém Aí? (uma sensível história sobre o luto) e o próprio A Estrela Mais Brilhante do Céu.

O livro tem um narrador intrigante que, na sua misteriosa missão, nos leva a conhecer os moradores de um prédio em Dublin, mas especificamente na Star Streat, 66. Quatro andares. No primeiro, o casal Matt e Maeve, simpáticos e apaixonados, mas algo está errado naquela harmonia de corações. No segundo, Jemima, uma senhora marcada pela vida em seus mais de 80 anos, e seu cachorro, chamado Rancor, irão receber a visita do bonito, mas perdido Fionn, filho adotivo de Jemima. No terceiro, a jovem batalhadora, destemida e rude Lydia divide o apartamento com Jan e Andrei, poloneses musculosos, sensíveis e com saudades de casa. No quarto e último andar, a sensata Katie vive sozinha e acaba de completar 40 anos. Em comum? Eu diria que eles estão, no mínimo, insatisfeitos. Alguns realmente depressivos. Tristes com a vida que levam, com todo peso do passado, presente e futuro que têm sob si. Menos Jemima que parece ser mais resignada. Mas alguns deles estão tão insatisfeitos com a vida que sentem alivio em arriscá-la em sinais de transito ou ficam imaginando quantos bolos de chocolate alguém tem que comer para morrer.

Acompanhar a jornada desses personagens nos oferece passagens ora sufocantes, ora divertidas. Um dos livros mais densos de Keyes, sem dúvidas, que mostra maturidade, sem perder a leveza da juventude.

Na contracapa de A Estrela... a autora alerta que é impossível escolher seu livro preferido, seria como uma mãe ter que escolher entre um de seus filhos, no entanto, revela que este era o seu preferido. Eu sei, o nome não ajuda, a capa também não passa lá muita credibilidade, fica difícil o levar a sério e nem sei se é essa a intenção, mas não vá lê-lo achando que é mais uma história bobinha para menininhas, muito menos achando que será o próximo ganhador do prêmio Nobel. Vá sem expectativa, afinal, "um dia todos nós vamos estar mortos e nada disso vai ter a menor importância". Mas se eu fosse você, leria mesmo assim.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mulher Perdigueira, de Fabrício Carpinejar



“No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo 
e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá 
que abandonar a filosofia pessimista,a inteligência solteira do
botequim e se declarar apaixonado.  Terá que ser incoerente, 
contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a
certidão negativa, a proteção bancária,
os manifestos de aversão ao casamento e filhos.” 
Carpinejar


Num relacionamento amoroso, a mulher não pode bancar a controladora, ciumenta e escandalosa, não pode ligar o tempo todo, escancarar a paixão, afinal, homens não gostam disso. Opa! Cuidado com as generalizações, Fabrício Carpinejar declara: “Quero uma mulher segurando meus dois pés. Segurar os dois pés é carregar no colo”. Ele gosta justamente do tipo de mulher que a sociedade reprova, ou melhor, ele gosta de mulher de verdade, aquela que é emoção não reprimida pela razão. Mas não se trata de uma mera preferência, é defesa que explica, justifica. É crítica aos amigos e demais homens que clamam por liberdade. É uma obra literária.

Mulher Perdigueira é um livro que reúne crônicas que versam não só sobre a paixão de Carpinejar à mulher que envergonha boa parte da sociedade, como também sobre as situações comuns que ocorrem nos relacionamentos, no jogo da convivência, na sua vida. Talvez por ser poeta, transforma o simples em encantador ou, se preferirem, aponta o encanto do simples, do pequeno, do corriqueiro.

Romântico e cuidadoso na escolha das palavras, Carpinejar nos envolve numa leitura prazerosa. Provocador, nos leva a questionar nossas convicções, a concordar, discordar, duvidar, criar certezas, pensar. Uma leitura que nos provoca é sempre válida.

Indiscreto, abre o livro e, com isso, nos engole num golpe de intimidade. E, então, o leitor se sente em casa. Fica a ligeira sensação de que descobrimos muito sobre o mundo masculino, pelo menos o de um gay heterossexual chamado Carpinejar. Aos homens curiosos por entender nosso universo, muitas constatações sobre a mente e o comportamento feminino. Fica a descoberta de que a dinâmica dos relacionamentos varia muito pouco, mas que, ao mesmo tempo, não se sustenta com receitas. Fica uma lição que vale para qualquer relacionamento: “a dor não pede compreensão, pede respeito.”

Mulher Perdigueira, publicado em 2010, é a dica de leitura para quem quer iniciar 2012 se deparando com uma escrita apaixonada e divertida sobre aquele assunto que interessa a todo ser humano saudável. Olha eu cometendo o erro da generalização novamente...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Livros em série



Séries de TV, assim como os livros, são uma das minhas paixões. Provavelmente porque o roteiro e o desenvolvimento dos personagens costumam ser de grande importância num episódio de seriado. Já no cinema, na maioria das vezes, isso fica mais disperso ou em segundo plano. Não que eu também não adore (bons) filmes, acho que entendem o que quero dizer. Além do que, atualmente, as produções de TV andam se destacando, devido a liberdade criativa e ousadia. Já que os estúdios de cinema parecem mais interessados em quantidade do que qualidade e se mantêm numa zona de conforto.

Há muitas séries inspiradas em livros, outras que inspiraram livros e ainda aquelas - mais raras - que, de uma forma ou de outra, giram em torno de livros. Hoje selecionei algumas da primeira categoria, ou seja, aquelas que tiveram sua origem, direta ou indiretamente, na literatura. E assim como os livros, têm séries para todos os gostos. Vamos a elas.


FRIDAY NIGHT LIGHTS


"Clear eyes, full hearts, can't lose!"

Friday Night Lights é uma das minhas séries preferidas da vida, e olha que já assisti/assisto a várias. Mas antes da série veio o filme e antes do filme, o livro. Tendo como subtítulo "A Town, a Team and a Dream", o livro do jornalista esportivo H. G. Bissinger tem narrativa factual e se encarrega de relatar a história real dos Panthers, um time de futebol americano de um colégio no interior do Texas. O livro foi lançado em 1990 e em 2004 virou filme. A série veio em 2006, com personagens e situações diferentes das do filme e com uma veia mais dramática, focando nas pessoas, mas tendo sempre o esporte como pano de fundo.

O que posso dizer é que poucas produções conseguiram contar histórias com tanta realidade e proximidade. Muito fácil se identificar com os personagens e se envolver com seus dilemas. Se você não gosta e/ou não entende de futebol americano, não tem problema, a série é muito mais que isso. Eu mesma achava esse esporte uma incógnita desinteressante e, no entanto, isso não me impediu de vibrar com as cenas de jogos e muito menos de me emocionar por e com aqueles habitantes da pequena Dillon, a cidade fictícia onde se passa o seriado. Eu me sentia em casa assistindo a Friday Night Lights. Digo mais, depois que se aprende um pouco mais sobre football, ele se torna bem interessante. E, vendo a série, você também começa a entender toda essa paixão que os americanos têm pelo esporte e sua forte presença na cultura daquele país.

Há boatos de que um novo filme está por vir, dessa vez inspirado na série (que se encerrou no começo desse ano) e com foco no casal Eric e Tami Taylor, respectivamente um técnico de futebol americano e uma orientadora/diretora de escola, e, sem dúvidas, a alma e os destaques do seriado, além de serem um dos melhores, mais adoráveis e mais críveis casais que já conheci no mundo da ficção.

A propósito, a série foi a campeã de melhor roteiro e de melhor ator de série dramática (Kyle Chandler por dar vida a Eric Taylor) do último Emmy, reconhecimento tardio, mas superválido. Como diria coach Taylor: “Olhos atentos, corações plenos, não se pode perder”. Ou em bom inglês: “Clear eyes, full hearts, can’t lose”.


JUSTIFIED


"Você puxa o gatilho e sua vida vai mudar. E não para melhor"

O protagonista da série, o agente federal, meio caubói, Raylan Givens, é um personagem de Elmore Leonard (também produtor da série), presente em alguns de seus livros e contos. A série incorpora esse clima de faroeste moderno e mistério policial criado por Leonard, assim como todo o pano de fundo para a construção do personagem principal e de sua trajetória. De poucas palavras, cético e com pinta de justiceiro, Givens tenta combater o crime na sua cidade natal enquanto lida com seus próprios fantasmas. Em princípio parece mais um seriado policial qualquer, um procedural que segue sempre a mesma fórmula, mas logo se ver que tem muito mais a oferecer. A segunda temporada, por exemplo, figura como uma das melhores coisas da TV desse ano. E a terceira temporada estréia nos EUA em 2012.



SECRET DIARY OF A CALL GIRL


Começou como um blog, depois vieram três livros e, por fim, uma série baseada na vida de uma garota de programa britânica, conhecida como Belle de Jour (hoje em dia uma pesquisadora com dois doutorados). A série teve quatro temporadas de um tom leve e divertido, mas sem nos poupar dos pormenores da profissão.


SEX AND THE CITY

Foram seis temporadas e dois filmes (até agora) sobre a vida das amigas Carrie, Charlotte, Samantha e Miranda, retratando o universo feminino numa grande cidade (no caso, Nova York), mas tudo começou com o livro de Candace Bushnell de mesmo nome.


SHERLOCK


"Não sou um psicopata. Sou um autista sociopata. É diferente, eu pesquisei"

Como um dos personagens mais icônicos da literatura mundial, Sherlock Homes já ganhou diversas versões, mas a proposta dessa série inglesa (da BBC) é trazê-lo para os dias atuais, e essa roupagem contemporânea dá o tom da produção, mas sem deixar de lado a essência do detetive de Arthur Conan Doyle. Comandada por Steven Moffat (roteirista e produtor responsável atualmente também pela clássica Doctor Who), a minissérie fez bonito nos três episódios de sua temporada inicial (em 2010). A próxima temporada, infelizmente, só deve vir ano que vem.


PRIDE AND PREJUDICE


“Onde há uma superioridade de mente, o orgulho será normal sempre”
Mais um clássico britânico que a BBC se encarregou de levar pra telinha. Pretendo falar mais de Orgulho e Preconceito, o livro, a série e o filme, num post especial dedicado apenas a essa obra, que vem a ser um dos meus livros preferidos. Por hora basta dizer que a minissérie de 1995 em seus seis episódios foi fiel ao livro e fez uma adaptação adorável, além de ter acertado em cheio ao escalar Colin Firth pra viver Mr. Darcy.

A BBC também produziu minisséries de outros livros de Jane Austen, como Emma, mas ainda não cheguei a vê-las.


TRUE BLOOD

Inspirada nos livros As Crônicas de Sookie Stahouse, de Charlaine Harris, True Blood se passa numa cidadezinha do sul dos EUA e fala da co-existência entre humanos e vampiros quando os últimos resolvem sair do caixão e têm que lutar para serem aceitos. Eu só li o primeiro livro e não me instigou a continuar a leitura dos demais, mas as duas primeiras temporadas da série são boas, especialmente a segunda, já as duas mais recentes (a série acaba de encerrar sua quarta temporada) deixam muito a desejar.


DEXTER

Livros escritos por Jeff Lindsay sobre um psicopata que mata criminosos. O seriado já está na sua sexta temporada e, apesar da última ter sido lamentável, já foi uma das melhores e mais originais produções da televisão e ainda há esperança que Dexter volte a ser aquela série matadora (desculpe o trocadilho) que nos conquistou.


GAME OF THRONES

"Quando se joga o jogo dos tronos, você vence ou você morre"

Tida como a melhor fantasia da atualidade, As Crônicas de Gelo e Fogo já está no seu quinto livro (serão sete no total e três já foram lançados no Brasil: Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis e A Tormenta de Espadas). A fama dos livros chegou antes, mas vi primeiro a série e só depois me embrenhei nas milhares de páginas dos dois primeiros volumes. Não é fácil memorizar o nome dos diversos personagens e suas ligações, famílias, vassalos, reinos e afins, mas quando se penetra nesse mundo criado por George R. R. Martin, é difícil sair. O que chama atenção na saga são seus temas, como intrigas políticas e jogos de poder, tudo numa linguagem mais adulta que ousa abordar assuntos mais delicados como incesto e prostituição. Só mesmo a HBO para conseguir adaptar os livros com a produção e a liberdade que merecem. A série estreou esse ano e consagrou-se como sucesso de público e crítica, garantido logo sua segunda temporada, prevista para abril de 2012.


Obs: Há muitas outras séries que ficaram de fora, inclusive nacionais (Os Maias, Capitu...), mas optei por restringi minha seleção às séries americanas e inglesas e, mais ainda, restringi também àquelas que já assisti e/ou li os livros que lhe deram origem e, principalmente, que julgo que devem ser vista e/ou lidas. Ficam as dicas.

domingo, 25 de setembro de 2011

Variações sobre o prazer, de Rubem Alves



“Albert Camus sonhava com o momento em que ele escrevesse com liberdade total, na orgia anárquica do corpo: “Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça.” Ele não teve essa chance. Morreu antes. Eu estou tendo.”

Dizem que Rubem Alves é filósofo, psicanalista, pedagogo, escritor, mas, antes de tudo isso ele é um educador que provavelmente já nasceu com o dom de ensinar. Em poucas e compreensíveis palavras, explica e explora conceitos, os complicados conceitos, seja escrevendo ou falando, afinal, ambas não passam de uma agradável conversa.

Variações sobre o prazer [Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette] é o último lançamento de Rubem Alves, o cara que, como ele mesmo gosta de brincar, Deus já tentou levar daqui algumas vezes, mas resistiu bravamente porque gosta – e muito – da vida. E o que mais poderíamos esperar de um leitor apaixonado de Nietzsche? É a verdadeira personificação do “sim a vida”. A obra, como denuncia o título, é um passeio pelo prazer que a filosofia, a política e a comida podem nos dar.

Com uma rica referência de cinema, música e literatura sendo sugerida durante o livro, Variações Sobre o Prazer é, novamente, uma crítica aos eruditos, ao nosso modelo de educação, ao que a maioria das pessoas entende por ciência, conhecimento e sabedoria. É o amor que Rubem Alves não cansa de declarar à vida, sobretudo, à natureza.

Como quando recebe um microfone na mão, Rubem Alves escreve abrindo parênteses para tudo, inserindo longos comentários que mudam o foco, nos levam para longe e, de repente, como se perguntasse “do que é que eu estava falando mesmo?”, ele nos traz de volta a conversa inicial. É assim que faz a interação prazerosa entre teologia, sabedoria de vida, sabedoria conceitual, sabores, corpo, alma, mente, filosofia, economia, culinária, estética.

Variações sobre o prazer é uma conversa que só tem a nos acrescentar, até mesmo a você que jura que já viu e sabe tudo sobre o mundo. Diferentemente dos que vomitam conhecimentos, Rubem Alves nos leva a refleti-los e admirá-los.

“Tornei-me inimigo dos sonhadores ingênuos que pensavam que bastaria que os homens mudassem suas ideias para que o mundo também mudasse. Moquecas não se fazem só com ideias e intenções. Quem quer mudar o mundo tem de ser um especialista no uso do fogo. Na história, esse uso do fogo tem o nome de política...”

domingo, 18 de setembro de 2011

Lançamento: "Acaba Não, Mundo"


Literatura Coletiva

“ACABA NÃO, MUNDO e outras do www.cronicadodia.com.br”, celebra a longevidade do site na internet e reúne autores para lançamento em Belo Horizonte.

Manter um projeto vivo por treze anos num terreno tão efêmero quanto a internet é uma façanha. E, quando acontece, precisa ser comemorada. Nada mais oportuno, então, que comemorar publicando um livro, já que estamos falando de um projeto de difusão literária, idealizado pelo professor e escritor Eduardo Loureiro Jr.
Trata-se do Crônica do Dia (www.cronicadodia.com.br), site que, como sugere o nome, publica diariamente textos dos novos cronistas do Brasil sob o olhar atento de mais de quinhentos leitores diários.
Estes leitores, agora, poderão ter o Crônica do Dia em suas cabeceiras, graças a uma antologia, organizada por Eduardo Loureiro Jr., reunindo textos de trinta autores que já contribuíram com o site. “ACABA NÃO, MUNDO e outras do www.cronicadodia.com.br”, como foi batizada a obra, será lançada em algumas capitais brasileiras, começando por Belo Horizonte.
O objetivo de lançar o livro em várias cidades é o de possibilitar o encontro e a confraternização dos 30 autores – que estão espalhados por todo o Brasil – com seus leitores. A reunião de entusiastas em prol desta causa, aliás, foi uma característica que marcou todo o processo de produção do livro. A publicação não apenas foi escrita coletivamente como foi custeada por meio do financiamento colaborativo, obtido pelo site catarse.me. Além disso, a capa do livro também foi escolhida em um concurso organizado na internet.
O lançamento em Belo Horizonte acontecerá no dia 24 de setembro, sábado, das 11h às 13h, no Café Com Letras (Rua Antônio de Albuquerque, 781, Savassi - Belo Horizonte), com a presença dos autores Eduardo Loureiro Jr., Felipe Peixoto Braga Netto, Fernanda Pinho e Paula Pimenta (autora da série “Fazendo Meu Filme”).
Posteriormente, o livro será lançado em São Paulo (08/10), Rio de Janeiro (22/10), Brasília (03/11) e Fortaleza (17/11). 



Estarei nos lançamentos de BH e São Paulo. Espero vocês, gente!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

No Buraco, de Tony Bellotto



Publicado em Setembro do ano passado, No Buraco, o último romance do músico e escritor Tony Bellotto relata a história de um guitarrista de uma banda de rock dos anos 80 que só conseguiu emplacar um único sucesso. Quem narra sua história, é o próprio guitarrista, Teo Zanquis, divertido e frustrado. E, com isso, o guitarrista dos Titãs consegue despertar no leitor a curiosidade sobre o que pode ou não fazer parte também da sua história. Isto é, será tudo mera ficção? A dúvida tortura fãs, o enredo seduz todo leitor que se interesse por aventuras, reflexões e até mesmo um pouco de mistério.

O livro fez com que eu entrasse em crise. Envolver um leitor a esse ponto talvez seja o maior anseio de um escritor e também, vale dizer, sua maior dificuldade. Fácil é produzir algo que alguém simplesmente goste ou não, entretanto, algo que fique martelando lá dentro quando tudo acaba, acredito que seja um pouco mais complicado. Isso prova o quanto Bellotto cresceu no decorrer de suas obras, explorando, cada vez mais, o íntimo de seus personagens e fazendo com que nós, leitores, nos interessemos por eles da mesma forma, ou até mais (e esse é meu caso) que pelo desenrolar da trama em si. 

No Buraco é, em minha opinião, uma grande interpretação de um ditado que me incomoda muito, “nadou, nadou e morreu na praia”. Teo Zanquis parece ter tentado de tudo e fracassado em tudo. Embora seja uma ótima companhia e, aparentemente, excelente com as mulheres, é um sujeito que não só se considera um músico decadente ( e é), mas transformou seu espírito nisso quando, até certo ponto de sua vida, era o contrário. Talvez porque agora ele tenha tempo para pensar, e refletir demais é mesmo angustiante. Por conhecer muito bem alguém extremamente parecido com Zanquis, me identifiquei facilmente e talvez isso tenha contribuído o bastante para a minha avaliação de No Buraco, confesso.

A narrativa apurada, sedutora e bem humorada de Tony Bellotto torna a leitura leve e gera em nós, leitores e leitoras, uma ânsia por terminá-la, consumi-la, o quanto antes. No entanto, não é este o ponto culminante de No Buraco, mas a maneira como Tony aborda a concepção do tempo em cada momento da vida de seu personagem que ora parece julgar tê-lo de sobra, acreditando poder fazer tudo e mais um pouco, e ora se vê lutando contra o tempo. O modo como Zanquis se confronta com o tempo é absolutamente realista e, por isso mesmo, interessante. E foi, sem dúvidas, a principal razão da minha crise existencial pós-leitura. E é por todas essas razões que indico a leitura de No Buraco, um romance divertido e ao mesmo tempo intrigante.

ps: essa resenha foi publicada inicialmente no blog Entretenimente !

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Garotos Incríveis, de Michael Chabon




"Os escritores, diferentemente da maioria das pessoas, contam suas melhores mentiras quando estão sozinhos"


Às vezes tenho a impressão que existem mais livros sobre escritores e seu ofício do que sobre qualquer outro tema. Em apenas uma olhada rápida pra uma das prateleiras de livros da minha estante, identifico três: "Pergunte ao Pó", de John Fante, "Budapeste", de Chico Buarque e "Garotos Incríveis", de Michael Chabon. E se olhasse mais atentamente ou parasse pra pensar por dois minutos, a lista aumentaria exponencialmente.

Mas vamos aqui falar um pouco do último dessa categoria que conseguiu lugar na minha estante. Comprei num sebo, motivada pelo autor, de quem já ouvira falar tão bem. Acho que "Garotos Incríveis" (no original "Wonder Boys", o Wonder aqui sendo sobrenome não adjetivo como na versão brasileira, ou melhor, no inglês existe essa dualidade que se perde no português) vem a ser, creio, um dos romances mais reconhecidos de Chabon, então, seria uma boa maneira de começar.

Wonder Boys, no livro, é o título do romance inacabado do protagonista, o professor universitário Grady Tripp. O protagonista também é o narrador, o que faz que a gente mergulhe na mente de um escritor em volta da conclusão de seu livro, de mais um casamento fracassado, de seus vícios, do seu editor, de seus alunos e de todos seus outros tormentos. E mergulhar na mente de alguém, ainda mais da de um escritor, pode ser confuso e diluído, mas ao mesmo tempo interessante e reflexivo.

A ação do livro se passa em dois dias. Somos guiados pela mente de Tripp até o fim daquela jornada e, por vezes, nos vemos mais energéticos, envolvidos e instigados, e em outras, mais letárgicos, distantes e entediados.


O livro virou filme, estrelado por Michael Douglas e com Bob Dylan na trilha sonora. As sensações que o filme desperta são as mesmas do livro, sendo que no último, como costuma ser, é tudo mais detalhado. Na minha opinião, o que valeu a leitura e o filme foram os momentos sobre literatura.

Uma das partes mais interessantes do livro é quando Grady Tripp nos explica o que ele chama de doença da meia-noite que ataca os escritores, fazendo um paralelo entre eles e os insones. Eu como insone profissional e escritora amadora, me identifiquei total. Fiquem com as palavras de Tripp sobre o assunto:

"A doença da meia-noite é uma espécie de insônia emocional; a cada momento consciente sua vítima - mesmo se escreve de manhã ou no meio da tarde - sente-se uma pessoa deitada num quarto sufocante, com a janela aberta, olhando para um céu cheio de estrelas e aviões, ouvindo a narrativa de uma persiana barulhenta, uma ambulância, uma mosca presa numa garrafa de Coca, enquanto ao redor os vizinhos dormem a sono solto. Na minha opinião é por isso que os escritores - como os insones - são tão propensos a acidentes, tão obcecados com cálculo do azar e das oportunidades perdidas, tão dado à ruminação e à incapacidade de abandonar um assunto, mesmo quando lhe pedem repetidamente para fazê-lo"